Baleia arranca perna de homem, homem caça baleia, baleia mata homem. Pronto, essa é a história de Moby Dick.
É sério, depois que se tiram todos os “extras”, é essa a história de um dos maiores clássicos da literatura mundial, escrito por Hermam Melville em 1851. Então por que cargas d águas esse livro é considerado um dos melhores de todos os tempos? Por que é mesmo. Não pela história em si, que, é bem simples, mas pelo jeito que a história é contada.
Pra começar, é uma história sobre obsessão: O Capitão Ahab (o perneta já mencionado) está tão empenhado em sua vingança contra Moby Dick que não percebe que essa vingança vai destruí-lo. Ou talvez quase perceba, há passagens no livro em que ele quase percebe o absurdo de caçar pelo mundo um animal que, no final das contas, não tem o raciocínio para saber que lhe causou mal. Mas ele não consegue deixar de lado. Nunca. E depois de cada momento que ele quase se liberta da sua obsessão, ela retorna com força redobrada.
É também uma história sobre fanatismo. Por mais que muitos membros da tribulação entendam que caçar Moby Dick por vingança não é tão lucrativo quando caçar outras baleias (quaisquer outras), eles são dominados por Ahab. Não só pela sua autoridade como capitão, mas pela sua personalidade, e pelo seu fanatismo. Em poucas palavras, a loucura de Ahab contamina a tripulação sempre que ele está entre eles, embora sempre que ele se afasta eles voltem a pensar mais racionalmente. Mas nunca a ponto de desafiá-lo. A caça a Moby Dick se torna quase um culto, quase uma religião (apesar de bastante doentia) entre a tripulação. Ahab chega a ser visto como um deus por alguns tripulantes que fazem parte de tribos selvagens. Mesmo a morte de alguns deles é encarada como uma espécie de sacrifício exigido por seu “deus” Ahab na sua cruzada contra Moby Dick.
É curioso como Ismael, o narrador, embora também afetado pela “loucura” de Ahab consegue se manter mais ou menos lúcido. Pelo menos o suficiente para nos contar a história. Ismael é um homem estudado, educado, com conhecimentos de latim e literatura clássica, coisas que dificilmente se espera em um marujo baleeiro do século XIX. Ele é também um homem surpreendentemente esclarecido e tolerante para a época, que é capaz de ver em seu colega Queequeg, membro de uma tribo de canibais dos mares do sul, não como um “bárbaro selvagem” ou “demônio” como a maioria das pessoas do século XIX o veriam, mas simplesmente como alguém com uma cultura diferente, mas que pode ser tão civilizado quanto qualquer lorde inglês, só que de forma diferente. Em resumo, ele vê o caráter de Queequeg, não sua aparência (coisa que sejamos francos, muitos de nós no século XXI ainda precisamos aprender).
Ah, só pra ninguém dizer que eu não falei disso, eles dormem juntos na mesma cama logo no começo do livro. Sei lá eu se eles fizeram alguma coisa, provavelmente não, mas eu imagino o escândalo que deve ter sido pros leitores do século XIX (duvido que ninguém na época tenha percebido a malícia da cena).
Mas uma das coisas mais curiosas sobre o livro não é nem a história. É o que Melville usou para encher lingüiça. De tantos em tantos capítulos, somos presenteados com algumas filosofias de Ismael, e, principalmente, com suas descições sobre a caça da baleia e dos conhecimentos que se tinha sobre elas na época. É importante lembrar que estamos falando de um livro escrito no século XIX, quando ser baleeiro era uma profissão respeitável, que fazia os vizinhos olharem com admiração e as mulheres suspirarem, pensando no partidão. Bom, talvez nem tanto. Mas era respeitável. E na época, caçar baleias era necessário, e morriam mais baleeiros do que baleias, ao contrário de hoje em dia.
E Melville sabia sobre o que estava escrevendo, tendo ele mesmo sido marinheiro por muitos anos. As descrições do processo de caça da baleia e do cotidiano do navio são interessantíssimas e bastante detalhadas, ele explica os vários usos que se tinha para a baleia naquele tempo, quando ela era usada como matéria prima para praticamente tudo, e tudo nela era aproveitado, a carne, a gordura, as barbatanas (aquelas da boca, não as de nadar) e o espermacete. Não, não é isso que vocês pensaram. Espermacete é o nome daquela gordura que algumas baleias, como o cachalote, tem na cabeça/ focinho/ sei-lá-o-que-é-aquilo, que forma aquele “calombo” quadrado na frente.
Em resumo. Leia Moby Dick. Vale a pena. Você vai ler, ler, ler e a história não vai andar muito, mas é um livro interessante, e é um daqueles que todo mundo deveria ter obrigação contratual de ler um dia na vida.
