OK, liberdade é uma coisa, mas tudo tem limite.

Antes de mais nada, é bom explicar como funcionam as obras em domínio público. Após algum tempo da morte do autor de uma obra literária, 50 anos pelas minhas fontes, suas obras passam a ser consideradas de domínio público, ou seja, todos tem acesso gratuito a elas, e todos podem fazer novas versões, ou novas histórias usando os seus personagens. É por isso que, por exemplo, Jô Soares pode escrever O Xangô de Baker Street, já que todos os livros da série Sherlock Holmes, escritos por Conan Doyle no final do século XIX, hoje são de domínio público, e podem ser distribuídos gratuitamente, e o próprio Sherlock Holmes pode ser usado em histórias por qualquer autor.

Isso é bom por dois motivos: O primeiro é que podemos ter acesso gratuito (e legal) a centenas de obras clássicas nas suas versões originais (as regras para traduções são um pouco diferentes, o tradutor é considerado “autor de uma obra derivada”, e tem direitos sobre sua tradução), e segundo que dá liberdade para autores usarem estes personagens clássicos em novas obras. Geralmente elas não são tão boas quanto as originais, mas há exceções. Acreditem, QUALQUER coisa que se faça com o Tarzan é melhor que aquela coisa asquerosa que foi o livro original.

Por outro lado, essa liberdade de usar o s personagens e/ou modificar as obras é uma porta aberta pra muita gente fazer merda. E acreditem, estou sendo educado chamando só de merda.

Algum infeliz lá nos Estados Unidos resolveu que seria legal pegar algumas histórias clássicas e colocar nelas alguns “elementos da cultura pop atual”. O resultado disso foram pérolas como “Orgulho e Preconceito e Zumbis”, “Razão e Sensibilidade e Monstros Marinhos”, e o ainda não publicado “Andróide Karenina”. Tive o desprazer de ler o primeiro capítulo de “Orgulho e Preconceito e Zumbis”. Basicamente, o que o autor (se é que podemos chamar assim) fez foi pegar a obra de Jane Austen, e modificar a história para que ela aconteça num mundo onde há uma praga de zumbis (estilo A Noite dos Mortos Vivos). E, é claro, as cinco irmãs que são as heroínas da história, ao invés de serem aquelas mocinhas de família da Inglaterra do século XIX, foram treinadas para matarem zumbis pelo pai. Elas tem até treinamento ninja. ISSO MESMO, NINJA!

Não sou fã de Orgulho e Preconceito, realmente não é meu tipo de literatura, mas o que esses criminosos fizeram foi pegar um clássico, um livro BOM, e transformá-lo numa aberração, Não vou nem pensar em passar os olhos pelos outros livros dessa série. E o pior é que deve estar dando dinheiro, porque outras editoras já começaram a fazer a mesma coisa. Agora temos versões zumbificadas de O Mágico de Oz, As Aventuras de Huckelberry Finn, e até Drácula (vampiros zumbis?).

O desgraçado do autor (cara, como eu estou odiando usar essa palavra pra descrever esse pulha) ainda tem a cara de pau de colocar o autor da obra original como co-autor dos monstrinhos. Justiça seria se os autores originais se levantassem das tumbas como zumbis e fossem atrás desse filho da mãe.

Bom, pra encerrar, que eu já estou com úlcera, o nome do infeliz é Seth Grahame-Smith, e a editora (americana) é a Quirk Books. Até onde eu sei, as monstuosidades não estão sendo publicadas no Brasil, e espero que nunca sejam.

 

 

E, a quem possa interessa, segunda eu não publiquei a coluna Primeiro Capítulo porque ainda estava com engulhos depois de ler esta merda.